terça-feira, 11 de setembro de 2012

Um fato não chora.

Entendi por que você quer destino

Como uma peça clama desfecho

Toda a dor buscaria um eixo

E viver não seria desatino


Como uma testemunha ativa

Esperando a ampulheta descer

Toda a dor com justificativa

E razão no padecer


Mas não percebes, seu truão!

A vida é uma piada

Onde só deus é quem da risada

Da tua tola ilusão


Sofrer na velhice ou na mocidade

Nada a ver tem com a idade

Mas sim com a tua visão


Aprendes cedo que nada aponta

Cheque sem fundo não se desconta

Mulher virgem não é senhora

E que um fato nunca chora.

sábado, 9 de junho de 2012

O exílio


Existe “algo” no mundo que nos confirma, quase indubitavelmente, que ele existe. O curioso é que este mesmo “algo” que é capaz de ratificar tudo lá fora, não consegue nos provar a nossa existência, pois somos alienados de nosso próprio ser. E essa alienação é aquilo que chamamos de “vazio interior”. Se a comunicação é uma tentativa de transpor o abismo entre o eu e o outro, ela é também uma tentativa de buscar lá fora aquilo que nos falta aqui dentro: A percepção do existir.

O que torna a comunicação agradável é a sensação de ser compreendido, pois despertamos no outro uma reação e esta preenche um pouco o nosso “vazio interior”. No entanto, a medida em que aumentamos a nossa sensibilidade intelectual passamos a alçar voos mais altos e a comunicar-se por vias mais rarefeitas o que, consequentemente, nos afasta do outro e torna incrivelmente mais difícil o nosso ato de encher o vazio com nada.

Vivemos a vida como quem tateia no escuro: Só conhecemos o que existe através do toque, porém quanto mais sensível o nosso tato menos conseguimos tocar. O que consequentemente nos alienará do nosso meio e nos levará ao exílio no deserto de nossa solidão onde só o eu existe e é incapaz de saber disso sozinho.

Quem disse que o conhecimento conforta não sabe o que é andar na Terra.

domingo, 3 de junho de 2012

O conhecimento não serve.


Entender o universo, ainda que de maneira errada, faz nos sentirmos “em casa” no mundo e é por isso que buscamos conhecer. Mas será que o que desejamos é realmente conhecimento?

Não é incomum escutar alguém dizer que não entende algo que acabou de explicar, porém como é possível não entender aquilo que já nos foi apreendido? Simples: A pessoa entende, mas o que ela quer é aceitar aquilo que entendeu.

A analise honesta de um fenômeno pode algumas vezes produzir conforto mas deve-se ter em mente que isso não é sempre consequência do saber, pois o universo não é uma caixa de diazepam cuja finalidade é aliviar sua ansiedade e, acredite, não serão poucas as vezes que conhecer e decepcionar-se estarão consequentemente ligados.

O supracitado pode parecer uma lamuria, no entanto é logicamente explicável: Não amamos as coisas ou as pessoas. Amamos a nós mesmos refletidos nas coisas e/ou nas pessoas e vivemos enxertando a nossa subjetividade no mundo para que o ato de viver torne-se mais agradável. No entanto a realidade é totalmente impessoal e o universo não se “importa” se você é pobre, negro, latino ou deprimido. O problema é todo seu. E como não há nada de nós nas coisas a lisura intelectual nos conduzirá a uma torrente de decepções.

Então, caro leitor, quando disseres que desejas “a verdade” pergunte a si mesmo se desejas conhecimento ou paz na alma, pois uma coisa pode negar a outra.

terça-feira, 6 de março de 2012

Não é de vertigem.

No passado o futuro era minha obra

Meu presente corria em velocidade de dobra

E logo logo eu seria feliz


Mas a estrada reta foi virando curva

A visão clara ficando turva

E a cor do amanhã virou cicatriz


E finalmente entendi a verdade

Que toda a beleza daquela pintura

Era um sintoma de minha candura

E escoava nas rugas de minha idade


Então passei a fruir o amargo

E percebi que todo e qualquer embargo

Era meu construto pueril


E por mais que pareça ignóbil

Meu whisky não me causa vertigem

Só me deixa mais sóbrio

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Smell like my spirit.

La vem ela espalhando esse gosto

Me obrigando de novo a provar o desgosto...

Que é o real.


Eu queria ser livre que nem a arte

Pra fazer da vida um belo estandarte...

Mas não é real.


Pra que serve a razão se não traz liberdade?

Expor a fealdade de ser o que se é?


A verdade é o olfato

Que te mostra um sutil fato


A vida tem um odor

Não ajuda e nem alivia

É tão amargo que causa dor

Tem gosto de whisky e misantropia.